2013 Relatório
de atividades

Valor dos Processos

Por muito tempo, o fim do crescimento econômico justificou a exploração massiva de recursos naturais e a negligência do bem estar e de diretos dos cidadãos. Sim, o mundo cresceu de forma sem precedentes desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas junto com essa riqueza vieram crises socioambientais que hoje desafiam a sobrevivência futura da humanidade. As mudanças climáticas são um exemplo de efeito colateral do crescimento a todo custo. Hoje, estamos mais ricos, mas também nunca estivemos tão ameaçados.

Se o caminho é tão importante quanto o destino, na era da sociedade em rede e dos desafios socioambientais, tanto os caminhos como os destinos se transformam. A geração de lucro para empresas conectadas a essas novas dinâmicas dá lugar à geração de valor, destino ao qual se chega levando em conta, por exemplo, as demandas sociais e os limites da natureza. As políticas públicas ganham consistência e legitimidade à medida que refletem os interesses e as necessidades do coletivo e não apenas de grupos específicos. E as lideranças se revelam capacitadas e eficientes para comandar governos ou empresas, uma vez que conseguem lidar com a complexidade dos fatores econômicos, sociais e ambientais que se integram e influenciam a tomada de decisão.

Esse tipo de cenário é o que tende a levar-nos para um desenvolvimento sustentável. Algumas palavras-chave permeadas pelo sentido de conexão têm sido verdadeiros mantras do GVces para apoiar essa trajetória: coformação, coconstrução, colaboração.

Turma ENLACE, da disciplina Formação Integrada para Sustentabilidade (FIS), durante kick off do desafio do semestre (10/9)

COFORMAÇÃO
A sustentabilidade desafia o senso comum e suas práticas tradicionais. Entre elas, a segmentação do conhecimento, pilar do mundo cartesiano que embasou o entendimento do mundo pelo Ocidente nos últimos séculos. No ensino, essa lógica está associada ao conceito de especialização, que ajudou bastante na evolução científica da humanidade voltada ao progresso material e intelectual das sociedades. Mas o conhecimento fragmentado falhou em apontar caminhos que evitassem mazelas sociais e ambientais, ao ignorar articulações entre agentes e saberes.

A questão da sustentabilidade impõe desafios à forma como pensamos a política, a economia e a sociedade, e no pano de fundo desses dilemas está a formação das pessoas.

Para o GVces, lidar com a inovação no processo de “aprendência” começa dentro de casa. Por meio da disciplina eletiva “Formação Integrada para a Sustentabilidade” (FIS), realiza um projeto de formação que estimula os alunos de graduação a fazer uma profunda reflexão sobre si mesmos, o outro e o ambiente. Também os leva a uma aproximação prática da realidade por meio de desafios contemporâneos que conectam empresas, sociedade e poder público, e do envolvimento necessário para fazer emergir encaminhamentos integrados e inovadores.

Através de dois projetos condutores – o Projeto Referência (um desafio real de um ator real) e o Projeto de Si Mesmo (no âmbito auto formativo) – o FIS trabalha um processo coformativo, no qual os alunos participam direta e ativamente da sua própria formação e da formação de sua turma. Essa abordagem busca trabalhar a Inter e a Transdisciplinaridade – ou seja, ir além da simples separação entre disciplinas ou, no máximo, até o diálogo entre diferentes disciplinas: busca derrubar as barreiras que as separam.

O contato com a realidade permite criar condições para um diálogo significativo com quem enfrenta diariamente os desafios da sustentabilidade e contribui para a emergência de um sujeito consciente do seu papel e da sua capacidade na transformação da economia, da política, da sociedade e suas relações com o ambiente.

Durante todo o processo coformativo, os "fisers" são desafiados a olhar para o todo, seja durante os encontros (aulas) ou durante as viagens de imersão (visitas a campo). O FIS pretende assim formar gestores que tomem decisões coerentes com a diversidade de atores, com a complexidade de realidades e visões de mundo, e com a construção de caminhos inovadores para uma sociedade sustentável, consciente e democrática.

“Participar da eletiva FIS foi sair do universo quadrado e estático da faculdade e mergulhar em um mundo complexo, profundo, cheio de desafios e oportunidades. O FIS abriu de vez várias janelas que ainda estavam emperradas, me fez analisar e criticar valores, pressupostos e crenças pregados por mim e por várias organizações (empresas, faculdades, governo etc.). A experiência com o FIS serviu para eu me conhecer mais e para me mostrar que não existe simplificação da realidade (reducionismo), o que existe é complexidade. Afinal o que é a realidade? Poderia alguém tentar simplificá-la?”

Luiz Garbin,
Aluno da turma “Enlace” (2º semestre de 2013) do FIS

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CONSTRUÇÃO COLETIVA
Integrar e inovar. Desafiar as convenções na formação é também engendrar mudanças na forma como lidamos com processos coletivos. Se eliminar barreiras do conhecimento é uma ponte para se apreender a complexa realidade contemporânea, abrir espaço para que atores de diferentes realidades participem da construção de entendimentos e soluções coletivas potencializa e a mudança para a sustentabilidade.

O GVces tem na coconstrução um pilar fundamental para suas iniciativas e projetos. Seja nas oficinas e grupos de trabalho da EPC, TeSE, IDLocal e ISCV, ou nas aulas do FIS, a construção coletiva de soluções criativas e inovadoras permeia todas as atividades do Centro.

Um exemplo da importância desse pilar é a revisão anual do questionário de seleção das empresas para o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBOVESPA. Anualmente, a equipe do GVces – que é responsável pela metodologia de seleção das empresas da carteira do ISE – promove um amplo processo de revisão do questionário junto a toda a sociedade. Isso é realizado a partir de uma consulta pública online, na qual qualquer pessoa pode contribuir com melhorias no questionário, que depois serão encaminhadas pelo GVces para os workshops de revisão. Nesses eventos presenciais, representantes de empresas elegíveis para a carteira, especialistas e sociedade civil podem dialogar com a equipe do GVces e os coordenadores de cada dimensão do questionário e apresentar novas propostas. Todas as contribuições são consideradas e endereçadas pelo GVces e pela BM&FBOVESPA na hora de definir os critérios e indicadores do questionário, que ainda passa posteriormente por uma audiência pública para validação e revisão final, antes de ser encaminhado para aprovação definitiva pelo Conselho do ISE (CISE).

Todo esse esforço tem o seu propósito: aperfeiçoar o questionário do ISE enquanto referência sobre sustentabilidade para as empresas, em sintonia com o objetivo do ISE de ser um indutor da sustentabilidade nas decisões de investidores. O engajamento das empresas elegíveis e dos demais atores pertinentes nesse processo ajuda a aprimorar o questionário e incentiva a discussão dos temas da sustentabilidade dentro das empresas. Não é à toa que o ISE vem se consolidando como um dos índices mais bem sucedidos da Bolsa: a carteira 2013/2014 reúne 51 ações de 40 companhias, que representam 18 setores e somam RS$ 1,14 trilhão em valor de mercado, o equivalente a 47,16% do total do valor das companhias com ações negociadas na Bolsa (valores de 26/11/2013).

Dentro das empresas selecionadas para a carteira do ISE, os números também apontam evolução: entre 2012 e 2013, aumentou o número de empresas que prestam contas das metas previamente assumidas: 68% prestam contas sobre metas ambientais (2012: 62%), 65% metas sociais (2012: 59%), e 63% metas econômicas (2012: 54%). Nesse mesmo período, as empresas da carteira do ISE também melhoraram seu desempenho na gestão do tema da sustentabilidade em suas estruturas internas: em 2013, 95% possuíam diretoria responsável por questões relativas a sustentabilidade que se reporta diretamente ao primeiro escalão (2012: 89%). Também no ano passado, metade das empresas da carteira acompanhavam sistematicamente os indicadores de sustentabilidade, com a mesma frequência das informações financeiras (2012: 41%). Esses números corroboram para a ideia do questionário do ISE enquanto instrumento de referência para que o setor empresarial desenvolva cada vez mais práticas de sustentabilidade - e a construção coletiva do questionário, feita a partir das revisões públicas periódicas, é um dos fatores que explicam esse potencial.

Workshop de revisão do questionário de seleção do Índice de Sustentabilidade Empresarial – ISE BM&FBOVESPA (09 a 11/4)

“O propósito do processo de revisão do questionário é incluir e aprofundar alguns temas, alinhar melhor as dimensões, e aprimorar os protocolos, a descrição da documentação probatória e dos requisitos, sempre mantendo a sua simplicidade. Para cada alteração feita no questionário, procuramos avaliar qual é a sua capacidade diferenciadora e a sua relevância para o documento, a sua aplicação dentro do contexto mais amplo das empresas elegíveis para o ISE, e a sua objetividade e pertinência, sem perder de vista o caráter pedagógico do questionário”.

Roberta Simonetti,
ex-coordenadora executiva do ISE

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COLABORAÇÃO
A sociedade em rede tem encontrado no adjetivo colaborativo uma tônica constante de iniciativas voltadas para o bem comum ou pelo menos para a construção de relações ganha-ganha. No contexto das empresas, a colaboração aparece como uma possibilidade de atuação em ecossistemas de inovação, como as cadeias de valor das grandes empresas, organizações dentro de um mesmo setor econômico ou ainda empresas que atuam em ramos diferentes mas que dependem de um mesmo tipo de recurso natural ou serviço ecossistêmico.

Se a competição acaba surgindo como palavra de ordem em algum momento do caminho, na colaboração as empresas têm a possibilidade de aprender mais sobre seu negócio, a partir de outras perspectivas, e a navegar pelo mar de complexidade que envolve suas relações com a sociedade, o ambiente e seus grupos de interesse.

A colaboração é o caminho mais eficiente para endereçar desafios comuns – ou desafios inesperados -, e na dialógica da sustentabilidade, colaborar pode significar a diferença entre uma tragédia de grande proporção e uma solução inovadora, integrando governos, iniciativa privada e sociedade civil em um mesmo cenário ambiental.

Em 2013, o GVces inovou na busca pela integração das agendas da sustentabilidade e dos atores econômicos ao unir alguns de seus projetos dentro de um marco comum – as Iniciativas Empresariais do GVces. E para inaugurar esse momento de integração, a equipe do GVces promoveu a Jornada Empresarial “Terceira Margem”, que levou representantes de empresas membro da EPC, IDLocal, ISCV e TeSE para a região de Extrema, no sul do Estado de Minas Gerais, para conhecer a experiência do projeto Conservador das Águas. Mais do que visitar atores da região, essa imersão também trouxe aos seus participantes uma experiência única de colaboração em torno de um bem comum – a água.

As nascentes dos rios Piracicaba, Jundiaí e Capivari, que fornecem água para o sistema Cantareira em São Paulo, se localizam nessa região serrana no limite entre SP e MG. Para preservar as nascentes e garantir a conservação dos recursos hídricos, o projeto Conservador das Águas desenvolveu uma articulação multissetorial que provê o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) aos produtores rurais que cedem um pedaço da sua terra para o plantio de árvores no entorno das nascentes em suas propriedades. Esses pagamentos são feitos com recursos da Agência Nacional de Águas (ANA), do Governo de Minas Gerais, da Prefeitura de Extrema, da Agência das bacias PCJ e de ONGs e empresas da região.

Para os participantes da Jornada, a experiência de Extrema mostrou como atores de diferentes setores e níveis podem colaborar para a preservação de um bem comum e para a resolução de problemas coletivos. No que tange à sustentabilidade, a integração faz a força.

Jornada Empresarial “Terceira Margem” na região de Extrema/MG (julho)

“Com essa primeira experiência integradora no âmbito das Iniciativas Empresariais, o GVces fortaleceu a sua crença de que experiências em campo são um espaço privilegiado de aprendizagem, troca de experiência e desenvolvimento pessoal. Esperamos contar com cada vez mais participantes nas próximas jornadas e explorar temas de sustentabilidade que representem desafios e inspirações às empresas”.

Manuela Santos
Pesquisadora do GVces

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O QUE APRENDEMOS E O QUE O FUTURO NOS RESERVA

A sustentabilidade força-nos a "sair da casinha", a olhar para o mundo e a compreendê-lo em sua diversidade e em suas diferenças. Não é apenas ver o objetivo final de um determinado trabalho - mas como ele é feito, quem ele afeta, quem ele contempla. E para desafios comuns, a atuação integrada e inovadora dos atores é capital para a busca de soluções efetivas.

Isso não é simples. Toda inovação, mesmo de processo, nos traz algum risco, especialmente para aqueles que ainda não estão engajados. Mas inovar é essencial para ampliar os nossos horizontes, aprimorar o nosso entendimento sobre o mundo e sobre si mesmo, recuperar o vigor e promover uma experiência a mais que explica e supera a anterior. Ao olhar para a diversidade, sempre nos confrontamos com algo novo e desconhecido.

Por isso o processo é importante, especialmente quando lidamos com problemas comuns. Coformar, coconstruir e colaborar são avenidas novas que podem nos levar um mundo mais justo, mais inclusivo e mais adaptado aos limites da natureza. Para o GVces, continuar o seu trabalho nessas avenidas é fundamental para que possamos permitir a transição para um novo modo de pensar, de produzir, de consumir e de viver.

Observando as experiências do FIS desde a sua criação, há quatro anos, é possível dizer que a sua abordagem Inter e Transdisciplinar tem muito a contribuir para as mudanças necessárias na formação no ensino superior. Ultrapassar a ênfase do ensino para a “aprendência”, articular diferentes razões (formal, sensível e experiencial) ampliando as vias de acesso ao conhecimento, criar pontes entre teoria e prática, inter-relacionar os diferentes níveis de realidade e pensar num processo que desperte a curiosidade dos alunos são alguns dos princípios a serem considerados num modelo de formação pensado para os desafios atuais. Esses princípios permitirão promover uma tomada de consciência e uma mudança no paradigma da percepção, interpretação e relação com a realidade, de maneira a promover um espaço fértil para a emergência do sujeito.

O contato com a realidade é um instrumento poderoso para essa tomada de consciência e mudança de paradigma. Tanto a Jornada Empresarial “Terceira Margem” como a imersão realizada pela IDLocal em Altamira (PA) deixaram claro como esse tipo de experiência é importante para quem vive os desafios pelo lado das empresas. O GVces promoverá mais uma jornada em 2014, no âmbito das quatro Iniciativas Empresariais, de forma a possibilitar que mais empresas e profissionais tenham essa experiência marcante.

A evolução do ISE em números (2012-2013)

Confira números sobre a evolução da carteira do ISE BM&FBOVESPA entre 2012/2013 e 2013/201
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