2013 Relatório
de atividades

Sustentabilidade em Cadeia

Assim como os ecossistemas naturais são caracterizados pela interdependência dos seres vivos entre si e com o ambiente, a existência e o funcionamento das organizações e da economia são fruto do diálogo constante entre clientes, parceiros e fornecedores, que coabitam um meio comum e são atravessados pelas dinâmicas da sociedade. Esse arranjo complexo tem exigido das empresas um engajamento em modos de operar mais alinhados com os limites de suporte à vida no planeta e em formas de contribuir com a redução das desigualdades na sociedade. Duas expressões-chave para isso são desenvolvimento sustentável e construção de uma economia de baixo carbono, sensível ao problema do aquecimento global.

Isso implica uma abordagem em rede, que estimule parcerias para inovação com foco em sustentabilidade. Ou seja, as empresas precisam ir além dos espaços e operações sob seu controle e pensar a sustentabilidade na perspectiva de um “ecossistema empresarial”.

Oficina de lançamento da Ação de Sustentabilidade do Projeto Brazilian Furniture (28/2)

SUSTENTABILIDADE DO LADO DE DENTRO
Participar de um ecossistema empresarial voltado à inovação e à sustentabilidade não é tarefa fácil. Da perspectiva interna das organizações, isso demanda conscientização e engajamento de funcionários em variadas frentes para efetivar mudanças na mentalidade por trás da geração de valor. Algo que rebate em questões como gestão e modos de produção.

Por exemplo, para as empresas moveleiras do país, mudar em prol da sustentabilidade pode significar a garantia de acesso a valiosos mercados externos e a possibilidade de novos negócios. Um dos principais desafios para essa indústria tem sido acessar mercados estrangeiros com grande potencial de geração de valor, como Estados Unidos e Europa, que vem impondo cada vez mais critérios de sustentabilidade sobre produtos e processos na produção de móveis.

Indústria moveleira e o Projeto Brazilian Furniture

A indústria moveleira do Brasil é composta por cerca de 18 mil empresas, sobretudo pequenas e médias, e que gera mais de 320 mil empregos diretos em todo o país. O projeto Brazilian Furniture, desenvolvido pela Apex-Brasil,foi criado em 1998 para promover as exportações brasileiras de móveis. Esse trabalho vem sendo feito a partir de capacitações, de feiras e rodadas de negócio no Brasil e no exterior, de prospecções de mercado in loco, de estudos do setor, entre outros.

A fim de melhorar a competitividade brasileira no mercado global de móveis, a Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), em parceria com a Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) procurou o GVces para propor uma parceria no âmbito da Ação de Sustentabilidade do projeto Brazilian Furniture

No decorrer de 2013, a equipe do GVces apoiou atividades do projeto Brazilian Furniture voltadas para a capacitação de empresas moveleiras na incorporação de atributos de sustentabilidade em seus processos e produtos. O foco dos trabalhos do GVces esteve nas pequenas e médias empresas, que compõem a maior parte dessa indústria no país.

A Ação de Sustentabilidade do Projeto Brazilian Furniture, iniciada com uma oficina com especialistas na FGV-SP em fevereiro de 2013, desenvolveu-se a partir de quatro etapas de trabalho, que contemplaram atividades como workshops de sustentabilidade em polos moveleiros (Arapongas/PR, Bento Gonçalves/RS, Chapecó/SC, Mirassol/SP e São Bento do Sul/SC), visitas técnicas às empresas, diagnósticos internacional, nacional e das empresas do projeto e seminários.

CONEXÕES PARA NOVOS DESAFIOS
Se a guinada à sustentabilidade dentro das empresas e em setores específicos pode representar um diferencial na hora de ganhar espaço no mercado internacional, aos poucos ela se torna também uma necessidade para que empresas continuem operando no nosso mercado doméstico. Nos últimos anos, o poder público vem desenvolvendo regulações em diversas áreas, por meio das quais ele estabelece metas e distribui responsabilidades para diferentes atores na condução para uma nova economia. Um exemplo que vem desafiando as empresas brasileiras na perspectiva da sustentabilidade em cadeia é a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em vigor desde 2010.

A PNRS estabelece metas e diretrizes para a gestão e gerenciamento compartilhados de resíduos sólidos, a partir do conceito de responsabilidade compartilhada – no caso, entre governos, empresas e cidadãos. Na prática, a execução dos cronogramas e das ferramentas previstas na Política tem sido bastante complicada. Um exemplo disso é a meta para eliminação dos lixões e aterros em todos os municípios brasileiros até 2014; de acordo com o Sistema Nacional de Informação em Saneamento, ainda existem mais de 2.900 lixões em operação no Brasil, especialmente nos municípios de menor porte. A Política também prevê a elaboração de planos específicos para setores estratégicos no tema de resíduos sólidos, mas os entendimentos ainda não resultaram em acordos definidos, o que pode atrasar o cumprimento de algumas das metas previstas.

Números dos resíduos sólidos no Brasil

- Segundo o Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS), dos mais de 2.900 lixões em operação no Brasil, 98% se concentram em municípios de pequeno porte e 57% estão no Nordeste.

- Dados da Ellen MacArthur Foundation sobre economia circular estimam uma economia de até R$ 700 bilhões caso os materiais utilizados na fabricação de bens de consumo retornassem à cadeia produtiva através da sua reutilização ou reciclagem.

- Segundo o Instituto de Pesquisas em Economia Aplicada (IPEA), o Brasil teria um ganho anual de cerca de R$ 8 bilhões caso todo resíduo reciclável que é encaminhado para aterros e lixões nas cidades brasileiras fosse reciclado.

Se o contexto jurídico ainda está incerto, a realidade está bastante clara: a gestão dos resíduos sólidos é um tema estratégico para o futuro do país, não apenas pela degradação ambiental causada pelo depósito desses resíduos em lixões ou aterros, mas pelas perdas econômicas decorrentes do descarte de materiais que poderiam ser reutilizados no processo produtivo. Para quem lida com a realidade e sabe da necessidade de mudar, o caminho pode ser a inovação voltada para a sustentabilidade.

Esta foi a motivação por trás do Ciclo 2013 de atividades do projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), iniciativa do GVces em parceria com o Citi e patrocínio da Citi Foundation. A proposta deste projeto é apoiar o diálogo aberto como uma ferramenta para promoção da inovação voltada para a sustentabilidade a partir de pequenas e médias empresas (PME) e empreendimentos de economia solidária (EES) presentes na cadeia de valor de grandes empresas. Neste ciclo de atividades, o objetivo foi trabalhar a questão do pós-consumo através de temas como gestão de resíduos, logística reversa e inclusão social, explorando as possíveis soluções desenvolvidas por pequenos empreendedores.

Como no ciclo anterior, em 2013 o projeto conduziu atividades de reflexão e discussão aberta com representantes de grandes empresas, de PMEs e ESSs, além de especialistas e representantes do poder público, enfocando os caminhos que as empresas brasileiras podem adotar para assumir suas responsabilidades e metas na gestão compartilhada dos resíduos sólidos no Brasil. Além dessas atividades, a equipe de ISCV selecionou nove casos de inovação na gestão de resíduos por parte de PMEs e ESSs na cadeia de valor de grandes empresas, apresentados durante o Fórum Anual das Iniciativas Empresariais do GVces e na publicação do Ciclo 2013 de ISCV.

Projeto ISCV reuniu grandes empresas e suas cadeias de valor em oficinas no decorrer do Ciclo 2013

“A Política Nacional [de Resíduos Sólidos] é uma decisão da sociedade, que precisamos dar encaminhamento e resolver. E precisamos fazer isso cooperando com os diferentes atores, compartilhando nossos aprendizados e construindo coletivamente os caminhos e soluções.”

Francisco Biazini, REDERESÍDUOS
Um dos empreendimentos de economia solidária selecionados para participar do Ciclo 2013 de ISCV

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SUSTENTABILIDADE DO LADO DE FORA
Se o engajamento dos diferentes atores ao longo da cadeia de valor de uma empresa é um passo importante para que a sustentabilidade se realize, quando o assunto é mudanças climáticas, o esforço coletivo é essencial. Uma organização não consegue dimensionar corretamente o seu impacto sobre o clima sem considerar as emissões que acontecem fora dos seus limites operacionais. Dessa forma, para realizar uma gestão eficiente das emissões de determinada organização, ela precisa envolver seus fornecedores, desde aqueles que proveem a matéria prima até aqueles que transportam os produtos finais até seus clientes.

Em 2013, o Programa Brasileiro GHG Protocol destacou o engajamento da cadeia de valor na construção de uma gestão eficiente e realista das emissões corporativas de gases de efeito estufa (GEE). Em fevereiro, o Programa promoveu uma feira que reuniu casos de seis grandes empresas que estão gerindo as emissões de GEE ao longo da sua cadeia de valor, com resultados positivos para mitigação e ganhos importantes em produtividade, eficiência e rentabilidade.

O envolvimento da cadeia de valor e até de setores inteiros permite não apenas dar escala a soluções e caminhos alinhados com a sustentabilidade, mas também maximiza os ganhos resultantes da adoção dessas mudanças, inclusive os ganhos econômicos. Numa economia competitiva, aliar rentabilidade com sustentabilidade é uma vantagem bastante relevante.

Outra abordagem da gestão de fornecedores voltada para a sustentabilidade que o GVces tem ajudado a disseminar diz respeito à construção coletiva de indicadores e critérios de sustentabilidade para orientar as empresas na hora de estabelecer regras para suas compras. Esse trabalho teve início em 2012, como parte do projeto ISCV, e prosseguiu em 2013 através de um grupo de trabalho (GT), que reuniu representantes de empresas membro da ISCV para discutir a construção de indicadores e critérios para compras sustentáveis, relacionamento e gestão de fornecedores. O GT promoveu três encontros em 2013, com foco na priorização dos temas a serem considerados pelos indicadores, nas experiências de promoção da sustentabilidade na cadeia de valor de grandes empresas e na aplicabilidade da ferramenta por parte das empresas que fazem parte da iniciativa. O objetivo estratégico desse esforço é desenvolver um instrumento de gestão de fornecedores que possa servir como ponto de partida para um sistema de Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) das compras corporativas sustentáveis – ou seja, um sistema que permita mensurar e avaliar adequada e comprovadamente os produtos e serviços comprados pela empresa através de seus atributos de sustentabilidade.

Apresentação de casos durante a Feira sobre Gestão de Emissões de GEE na Cadeia de Valor, organizada pelo Programa Brasileiro GHG Protocol (07/2) Apresentação de casos durante a Feira sobre Gestão de Emissões de GEE na Cadeia de Valor, organizada pelo Programa Brasileiro GHG Protocol (07/2) 1º encontro do Grupo de Trabalho (GT) sobre gestão de fornecedores, do projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (08/5) 1º encontro do Grupo de Trabalho (GT) sobre gestão de fornecedores, do projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (08/5)

"Percebemos que um ambiente de criação conjunta e de diálogo é o caminho para que grandes empresas, com cadeias de valor complexas e muita geração de resíduos, possam discutir inovação e sustentabilidade em suas operações e junto aos seus fornecedores."

Fernanda D'Ávila, BRF
Empresa membro do Ciclo 2013 do projeto ISCV

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O QUE APRENDEMOS E O QUE O FUTURO NOS RESERVA

Se olharmos a evolução do tema da sustentabilidade no ambiente empresarial na última década, vemos que muitas empresas brasileiras já absorveram tópicos relevantes dessa agenda. No entanto, o caminho para o engajamento pleno dessas organizações ainda é longo, e particularmente complicado para aquelas de menor porte: para elas, a informação e os recursos para ação nem sempre estão disponíveis, e quando estão, esbarram na falta de condições ou conhecimento técnico dessas empresas para acessá-los.

Dois desafios emergem de forma clara para aproximar essas empresas dos temas da sustentabilidade: entender a realidade cotidiana desses atores, seus dilemas e desafios; e comunicar sustentabilidade de uma forma adequada e compreensível, que permita a essas organizações se empoderar no tema e desenvolver-se dentro dos seus princípios.

O GVces teve uma experiência inédita nesse contexto, ao estabelecer uma parceria com a Agência Brasileira de Promoção da Exportação e Investimento (Apex-Brasil), com vistas a uma ação em comércio internacional. O projeto Brazilian Furniture permitiu compreender como um setor produtivo em específico – no caso, o de movelaria - procura se posicionar no mercado global através da incorporação de atributos de sustentabilidade em seus produtos.

Essa experiência serviu como insumo para o desenvolvimento de uma nova parceria com a Apex-Brasil, lançada em dezembro de 2013: o projeto Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor. O ICV Global pretende criar bases para inovação no modelo de atendimento às empresas brasileiras de micro, pequeno e médio porte em seu processo de internacionalização e posicionamento de produtos e serviços com alto valor agregado e possuidores de atributos de sustentabilidade junto a mercados compradores estrangeiros.

As empresas selecionadas pelo projeto participam de um processo intensivo de capacitação em sustentabilidade, visando fortalecer seus negócios e desenvolver os atributos necessários para o posicionamento estratégico e diferenciado junto a mercados importantes para seus produtos e serviços. Além dos espaços de formação, o projeto proporciona oportunidades de aproximação das empresas selecionadas com potenciais compradores e investidores internacionais.

“Estamos em uma estrada semelhante àquela construída no campo das mudanças climáticas e da gestão de gases de efeito estufa. Com este GT, queremos começar a construir formas de mensurar, relatar e verificar as compras sustentáveis - ou seja, um MRV para compras sustentáveis.”

Paulo Branco, vice coordenador do GVces
durante o 2º encontro do GT de Gestão de Fornecedores do projeto ISCV Veja mais

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