2013 Relatório
de atividades

Riscos e Vulnerabilidades

De um lado, fatores que representam uma ameaça a um negócio, uma comunidade, um ambiente. De outro, o grau de resiliência daqueles sob ameaça. Riscos e vulnerabilidades são dois termos que andam sempre juntos e fazem parte do vocabulário de quem estuda e de quem vivencia as relações entre economia, sociedade e natureza.

Os recursos financeiros são considerados determinantes para lidar com a questão dos riscos e vulnerabilidades. Mas muitos outros fatores são fundamentais. Visão integrada para compreender as conexões com demandas sociais e os limites ambientais; atuação condizente com os desafios mapeados; diálogo e mobilização em rede.

Esse tipo de abordagem permeia continuamente a trajetória do GVces para lidar com a extensa lista dos riscos e vulnerabilidades no caminho da sustentabilidade. Para tanto, busca construir conhecimento junto com empresas, governos e comunidades, para facilitar o entendimento dos desafios atrelados aos riscos e vulnerabilidades e auxiliar no desenvolvimento de soluções viáveis e efetivas, compatíveis com a realidade complexa que buscam modificar.

INVESTIMENTO PRIVADO, SUPERAÇÃO DA POBREZA E DA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL
Dentre as mudanças socioeconômicas vividas pelo Brasil desde o começo dos anos 1990, poucas são tão singulares como a do investimento social privado (ISP). A redemocratização política, o fim da hiperinflação e a estabilização da economia trouxeram para governos, empresas e sociedade civil uma nova forma de enxergar a questão pública: se antes a responsabilidade pelo desenvolvimento social se limitava apenas ao Estado, hoje esse peso é compartilhado com a iniciativa privada e a sociedade civil.

Nos últimos anos, o panorama do investimento social vem passando por novas mudanças internas. As fontes tradicionais de financiamento, como organismos internacionais, estão estagnadas, e o ISP atende cada vez mais à agenda de sustentabilidade das empresas, e não obrigatoriamente a demandas dos movimentos sociais.

Investimento social privado no Brasil

Dados do Censo 2013 do Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE) apontam para recursos da ordem de 2,3 bilhões de reais sendo destinados por seus associados ao campo socioambiental via investimento social e doações. Outra pesquisa, lançada pela Comunitas e pelo Benchmarck do Investimento Social Corporativo (BISC) em 2010, aponta para 1,6 bilhão de reais destinados voluntariamente a projetos sociais. Segundo a Charities Aid Foundation (CAF), a relação doações/PIB para o Brasil seria da ordem de 0,05%, enquanto que nos Estados Unidos esse índice se aproxima de 2%.

Nesse contexto, novos atores começaram a conciliar esforços de impacto social e ambiental com retorno financeiro - conhecido como retorno híbrido - a partir de um entendimento de que seus recursos podem contribuir mais para a solução de problemas sociais utilizando também mecanismos de mercado.

Junto com estes atores, novos mecanismos financeiros começaram a ser desenvolvidos ou adaptados para atender a esta demanda, como os Social Impact Bonds, empréstimos para organizações da sociedade civil, crowdfunding, mobile giving, entre outros. Esses mecanismos passaram a exercer um papel importante na atração de capital social, a partir de soluções inovadoras e escaláveis. Alguns países, como Canadá e Estados Unidos, perceberam o potencial desse crescimento nesse campo e formaram forças-tarefa, com o propósito de identificar gargalos e oportunidades e listar recomendações de medidas para avanço do setor.

Inspirado por essas iniciativas externas, em março de 2013 o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) convidou o GVces para auxiliar na estruturação de um grupo de trabalho com atores financeiros relevantes para identificar, estudar e descrever temas que representem obstáculos ou oportunidades para o campo das finanças sociais no Brasil. Através da ação desse grupo, a proposta do ICE é constituir uma força-tarefa brasileira em finanças sociais.

Trata-se de um movimento ainda em fase de estruturação, envolvendo um esforço inicial em termos de conceituação, criação de ferramentas e metodologias, levantamento de dados, mapeamento de atores e sua capacitação, entre outros. A contribuição do GVces tem sido fundamental para o projeto, tanto em termos de planejamento e facilitação das atividades do GT quanto em termos de definição conceitual e operacional, em conjunto com o ICE e outros membros do GT.

DESENVOLVIMENTO E DEMANDAS SOCIAIS
O boom de grandes empreendimentos e obras de infraestrutura vivido pelo Brasil - estradas, portos, aeroportos, ferrovias, usinas de energia, entre outros – tem injetado bilhões de reais na economia nos últimos anos e criado oportunidades de emprego, renda e geração de riquezas. De outro lado, efeitos indesejáveis impactam comunidades e o meio ambiente, especialmente quando a instalação desses empreendimentos falha em antecipar respostas adequadas aos riscos que eles impõem e ao grau de vulnerabilidade dos territórios que impactam.

Exemplo de um grupo bastante impactado por esse “outro lado” dos grandes empreendimentos é dos jovens que vivem nas regiões que recebem esses empreendimentos. Crianças e adolescentes, particularmente em situação de pobreza, educação deficiente, atendimento de saúde precário e falta de oportunidades estão mais propensos a violações dos seus direitos (como a exploração do trabalho infantil e os abusos sexuais), na fragilização dos vínculos afetivos familiares e nos demais espaços de socialização, como a escola. Finalmente, acabam sujeitos à passagem abrupta da infância para a vida adulta, em que muitas vezes continuam desamparados pelas instituições públicas e sem perspectiva de futuro.

Direitos Humanos e Empresas

Em sua busca por integrar cada vez mais os temas com que trabalha e os programas que os estudam, o GVces levou o tema dos Direitos Humanos no âmbito empresarial para além do projeto ID Local e o inseriu na agenda de discussão das empresas no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBOVESPA. Um dos workshops temáticos promovidos em 2013 abordou os dilemas e desafios desse tema dentro das empresas, especialmente o que diz respeito às responsabilidades da iniciativa privada na proteção dos direitos humanos. Saiba mais.

Esse turbilhão social e as profundas mudanças que os grandes empreendimentos trazem evidenciam como uma estratégia de inserção do empreendimento dentro da dinâmica socioeconômica local deve levar em conta uma complexa rede de fatores e relações. A postura da empresa frente a estes desafios faz muita diferença na transformação desses problemas em novas oportunidades para o território e também ganho para o negócio - ou em obstáculos e cobranças, caso ela não atue decisivamente.

A partir deste cenário desafiador, o GVces se uniu em 2013 à Childhood Brasil e ao Núcleo de Direitos Humanos e Empresas da Direito GV para estruturar o primeiro ciclo de uma nova iniciativa empresarial do GVces – Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local). Em seu primeiro ciclo de atividades, a ID Local se debruçou sobre a proteção integral da infância e da adolescência nos territórios afetados por grandes empreendimentos, focando especificamente o papel das empresas.

O desafio da proteção integral de crianças e adolescentes não é simples para as empresas, que muitas vezes buscam atender a requisitos legais para a instalação de um grande empreendimento, mas não conseguem internalizar suas diretrizes na estratégia de atuação local, seja pelo pouco engajamento de seus funcionários, seja pela falta de diálogo com a comunidade. O desdobramento mais perverso dessa situação é a ineficácia das ações de proteção.

Outro problema para as empresas na hora de atuar nesse campo está no equacionamento dos "tempos" envolvidos no planejamento, implementação e execução do empreendimento. A lógica de mercado, as exigências dos empreendimentos e até mesmo o processo de licenciamento (em especial quando se trata de obras de infraestrutura) dificilmente se mostram compatíveis com o tempo necessário para a preparação do território hospedeiro. Construir um processo que leve em consideração uma preparação adequada e que preveja os efeitos de curto, médio e longo prazos sobre as crianças e adolescentes no território é fundamental para garantir que ações de redução de riscos e da vulnerabilidade desse grupo social sejam eficazes ao longo de todo o período de funcionamento da obra ou do empreendimento, inclusive depois da sua conclusão.

Esta não é uma tarefa exclusiva da iniciativa privada, mas ela possui um papel fundamental na construção das ações necessárias para proteger integralmente os direitos das crianças e adolescentes, especialmente como catalisadora das reflexões e como facilitadora do envolvimento de atores sociais. Assim, o principal objetivo do ciclo inaugural da ID Local foi a construção de diretrizes sobre como as empresas podem preparar, por meio da atuação conjunta com stakeholders, os territórios que recebem grandes empreendimentos para garantir a proteção integral desses jovens cidadãos.

A partir de oficinas e uma viagem de campo para a cidade de Altamira (PA), a ID Local reuniu representantes de grandes empresas, membros do poder público e especialistas em direitos humanos e infância & adolescência para refletir e trabalhar na estrutura, proposta e viabilidade das diretrizes. No final de 2013, durante o Fórum Anual das Iniciativas Empresariais do GVces, a ID Local apresentou a publicação “Geração de Valor Compartilhado a Partir da Proteção Integral de Crianças e Adolescentes”, que traz a versão final das diretrizes desenvolvidas no decorrer do ano.

Oscar Vilhena (GV Direito, à esq.) e Reinaldo Bulgarelli (Txai Consultoria, centro), durante a 1a oficina do Ciclo 2013 da Iniciativa Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos - ID Local (30/1) Seminário da ID Local com especialistas em proteção integral da criança e adolescente (10/10)

“Foi extremamente gratificante podermos refletir junto com atores diversos, diante de várias perspectivas. Parabéns pela lucidez ao tratarem de forma bem articulada e consciente um tema de direitos humanos tão presente e desafiador que o nosso país enfrenta. A condução e empenho de vocês foi muito competente. Tudo isso foi de extrema relevância para que a publicação final ficasse tão boa.”

Luara Maranhão, Natura
Empresa participante do Ciclo 2013 da IDLocal

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DESENVOLVIMENTO E LIMITES AMBIENTAIS
Poucos desafios jogam tanta incerteza sobre o nosso futuro como as mudanças climáticas. Essas alterações trazem impactos interdependentes sobre a biodiversidade, a agricultura, a infraestrutura, a saúde, além da disponibilidade de alimento e de água potável. Pode-se dizer que as alterações no clima são um “mal comum” a todos os países, a todas as comunidades, a todas as empresas.

Os efeitos da mudança do clima já são bastante presentes em diversos locais e estão afetando economias inteiras ao redor do globo. A mitigação das emissões de gases de efeito estufa (GEE) não é mais suficiente para lidar com o problema, e na medida em que a temperatura média do planeta aumenta acima do que a ciência define como seguro, suas consequências ficam mais imprevisíveis, o que joga a todos dentro de um cenário futuro incerto e desconhecido.

No âmbito das empresas, as mudanças impactam crescentemente o desempenho dos negócios e a dinâmica de funcionamento do mercado. Os investidores também começam a se preocupar com os riscos climáticos associados aos seus investimentos, e as seguradoras requerem cada vez mais que as empresas tenham um gerenciamento de sua vulnerabilidade frente a esses riscos.

Nesse cenário, a palavra-chave para governos e empresas é adaptação – ou seja, adaptar as atividades antrópicas ao novo contexto climático instável, de forma a diminuir os possíveis impactos negativos e explorar oportunidades. Para tanto, essas iniciativas de adaptação precisam ser articuladas entre todos os atores, dos governos até as empresas e a sociedade em geral, de forma a viabilizar o custeio dessas ações – algo particularmente importante nos países em desenvolvimento.

Do ponto de vista das empresas, a ação não pode ser meramente reativa. Se a organização pretende desenvolver uma estratégia de negócio de longo prazo, a variável das mudanças climáticas precisa estar presente e ser levada em consideração nas demais frentes de atuação. As empresas precisam incorporar a questão da adaptação às suas agendas estratégicas, da mesma forma com que muitas fizeram em relação à mitigação das emissões de GEE. E fazer isso o quanto antes significa reduzir vulnerabilidade, isto é, ter mais condições de suportar pressões advindas do problema climático, o que pode levar a uma melhora significativa na competitividade da empresa num mercado em transição para uma economia de baixo carbono e com alta capacidade adaptativa.

Em junho de 2013, a Plataforma Empresas pelo Clima (EPC) começou a trabalhar a questão da adaptação climática no âmbito empresarial no Brasil, e o pontapé inicial dos trabalhos não poderia ser mais adequado: a realização do Fórum Latino Americano de Adaptação às Mudanças do Clima, evento organizado pelo GVces em parceria com o UNFCCC (sigla em inglês para Secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima). Com mais de 150 participantes de empresas, sociedade civil e academia, o Fórum apresentou a discussão atual sobre o tema na América Latina e as metodologias e ferramentas atualmente disponíveis para apoiar as organizações no desenvolvimento de suas próprias agendas de adaptação, além de reunir experiências e casos bem sucedidos de adaptação desenvolvidos por empresas latino americanas.

Outro esforço do GVces em adaptação climática é o trabalho desenvolvido pela equipe do programa Política e Economia Ambiental para o Ministério do Meio Ambiente. Com o apoio do governo, o GVces está promovendo oficinas com representantes de diversos ministérios, com o objetivo de buscar construir as bases para a elaboração de um Plano Nacional de Adaptação. Além disso, os pesquisadores também fizeram um mapeamento dos atores relevantes sobre adaptação às mudanças climáticas no Brasil. Os resultados desse trabalho serão divulgados até o final de 2014.

Fórum Latino Americano de Adaptação às Mudanças do Clima (26/6) Joanne Potter (IFC International), durante o Fórum Latino Americano de Adaptação às Mudanças do Clima (26/6)

“O setor privado pode ser importante para auxiliar as comunidades, especialmente as mais pobres, a se adaptarem às mudanças do clima, transformando esse novo cenário climático em oportunidades de negócio e dotando as cidades de resiliência e infraestrutura necessárias para resistir a essas mudanças.”

Joanne Potter, diretora executiva do ICF International
Durante o Fórum Latino Americano de Adaptação às Mudanças do Clima

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Maria Piza (GVces), fazendo a colheita gráfica da oficina da Plataforma Empresas pelo Clima (EPC) sobre Tecnologia da Informação e Riscos Climáticos (03/10)

COMUNICAR PARA ADAPTAR
A principal mensagem do Fórum foi que a adaptação às mudanças do clima podem ser uma oportunidade estratégica para que as empresas do continente deem um salto de competitividade e de inovação, com a criação de novos processos, produtos e serviços mais resistentes e que respondam às novas demandas e necessidades que venham a surgir a partir do novo contexto climático. E uma das frentes de inovação dentro de adaptação climática que vem sendo bastante trabalhada pelas empresas é a de tecnologia da informação e comunicação (TIC).

Tecnologia da Informação e Comunicação

O uso de soluções de TIC no Brasil pode propiciar uma redução de aproximadamente 27% das emissões de CO2 projetadas para 2020 (ICT Sustainability Index, 2010). De acordo com o relatório Smart 2020 (The Climate Group & GeSI, 2008), TIC poderá oferecer uma redução de 7,8 GtCO2 de emissões globais em 2020, o que representa 15% das emissões totais previstas para esse ano. A eficiência energética a partir da implementação de TIC permitirá uma economia de quase US$ 947 bilhões em 2020.

TIC aplicada a logística e transporte, por exemplo, pode reduzir em 1,5 GtCO2 as emissões previstas para esses setores em 2020, o que corresponde a uma economia de mais de US$ 440 bilhões.

A TIC possui um papel interessante no contexto das mudanças climáticas: ainda que seja responsável por apenas 2% das emissões globais de GEE, seus instrumentos tem o potencial de reduzir as emissões globais em até 15% em outros setores, além de auxiliar na adaptação climática das empresas. Nesse sentido, TIC oferece importantes soluções para redução das emissões de GEE, possibilitando às empresas analisar suas emissões e seu consumo de energia em tempo real, além de levantar e analisar dados ambientais necessários para gestão de riscos climáticos.

Por essa razão, a EPC também abordou os desafios e as soluções de TIC para mitigação e adaptação às mudanças do clima durante o ciclo 2013 de atividades, promovendo uma oficina especial sobre o tema, que trouxe os principais pontos do debate internacional em TIC e reuniu experiências e ferramentas desenvolvidas por empresas membro da Plataforma para gestão das emissões e de riscos climáticos. Esse trabalho especial resultou num artigo produzido pela equipe da EPC, que destaca as soluções de TIC em desenvolvimento no Brasil e tendências e oportunidades que podem ser exploradas pelas empresas brasileiras nos próximos anos nesse tema.

1a oficina do Ciclo 2013 da iniciativa Tendências em Serviços Ecossistêmicos – TeSE (21/2)

O FATOR ECOSSISTÊMICO
O enfrentamento das mudanças climáticas anuncia um futuro próximo permeado por limites rígidos ao modelo clássico de desenvolvimento, calcado no consumo massivo de combustíveis fósseis e emissões descontroladas de GEE. Governos, cidadãos e empresas estão cada vez mais conscientes da necessidade de modificar o padrão que orientou as políticas públicas e as estratégias empresariais desde a Revolução Industrial. Essa lógica da mudança não se limita aos preceitos da agenda climática, e ganha força também a partir de outras discussões, como sobre os serviços ecossistêmicos.

Estes serviços são definidos como as contribuições diretas e indiretas dos ecossistemas à economia e ao bem estar da humanidade, e podem ser classificados inicialmente em quatro categorias – provisão (de alimentos, água, matérias primas, biocombustíveis, etc.), regulação (clima, polinização, controle biológico de pragas, etc.), habitat (manutenção da diversidade biológica, etc.), além de recursos culturais (recreação, turismo, etc.).

O modelo clássico de desenvolvimento costuma não levar em consideração o “custo" do uso desses serviços da natureza por parte do processo produtivo, o que significa que muitas vezes o preço final de um dado produto não reflete exatamente o seu impacto em termos de recursos naturais utilizados na sua fabricação. No entanto, os recursos naturais, pensados enquanto serviços prestados pela natureza, não são inesgotáveis; o seu uso tem um custo, e se a economia não o contempla de forma clara, ele acaba sendo externalizado para toda a sociedade. Isso inclui aqueles que pouco se beneficiam da riqueza produzida – os mais pobres.

Serviços ecossistêmicos ao redor do mundo

Em 1997, o valor econômico global dos serviços ecossistêmicos foi estimado em US$ 33 trilhões/ano, número 83% maior do que toda a riqueza produzida globalmente naquele mesmo ano (Costanza et al., 1997).
Em estudo referencial para o tema de serviços ecossistêmicos, a multinacional Puma estimou em 2010 o valor econômico das externalidades de todos os seus produtos e descobriu que as mesmas correspondiam a 72% do lucro líquido da empresa naquele ano.
Até o momento, 22 países já iniciaram sua avaliação econômica de serviços ecossistêmicos seguindo as orientações do TEEB, dentre os quais Brasil, Alemanha, Reino Unido, Coreia do Sul, África do Sul, Polônia, Noruega, Suécia e Japão. Outros cinco países iniciaram seus estudos em 2013 (TEEB Country Studies).

Boa parte dos principais desafios ambientais da atualidade está relacionada a problemas na manutenção desses serviços ecossistêmicos, como a diminuição da água potável para consumo, o incremento do efeito estufa e a redução da biodiversidade. Por isso, as atividades econômicas precisam levar em consideração o valor desses serviços, dos quais se beneficiam e sobre os quais muitas vezes exercem impactos intensos. Aos poucos, as empresas vêm se conscientizando sobre a importância desses serviços para a viabilidade das suas próprias operações em médio e longo prazos, e um caminho para tentar reverter esse quadro de consumo desenfreado dos recursos naturais é a valoração econômica desses serviços. A ideia é permitir a inclusão do custo do uso do recurso dentro do preço final dos produtos e serviços disponibilizados no mercado.

Um desafio para o esforço de valoração econômica é definir como quantificar os serviços ecossistêmicos. Ao contrário das emissões de GEE, que podem ser contabilizadas através de uma unidade estabelecida, os serviços ecossistêmicos em geral não podem ser contabilizados de modo uniforme. É neste ponto que a iniciativa do GVces Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) procura auxiliar, ao desenvolver ferramentas e metodologias que facilitem a mensuração e a valoração econômica dos serviços ecossistêmicos.

Em 2013, durante seu ciclo inaugural de atividades, a TeSE procurou abordar a questão da valoração econômica a partir do desenvolvimento de um conjunto de diretrizes empresariais. Essas diretrizes se basearam em três premissas importantes: fundamentação em técnicas consolidadas no mundo acadêmico, mas simples e de baixo custo; flexibilidade e robustez suficientes para que as empresas pudessem adaptá-las para qualquer decisão de negócio; e clareza quanto aos limites das abordagens e quanto à interpretação dos resultados.

Todo o trabalho de desenvolvimento das diretrizes foi feito a partir de discussões com representantes de empresas e especialistas em serviços ecossistêmicos e biodiversidade e de esforços coletivos de criação do formato e do conteúdo dessa ferramenta. Nesse primeiro ciclo, a TeSE contou com o apoio da The Nature Conservancy (TNC Brasil) e da Conservação Internacional (CI Brasil). Um dos objetivos desse trabalho foi oferecer ao setor privado uma ferramenta com a qual a empresa possa fazer suas próprias estimativas de valor econômico ambiental, ou que pelo menos reduza a dependência de empresas de apoio externo para obter tais estimativas.

A primeira versão dessas diretrizes também foi apresentada durante o Fórum Anual das Iniciativas Empresariais do GVces, no final de 2013.

O QUE APRENDEMOS E O QUE O FUTURO NOS RESERVA

O modelo atual de desenvolvimento nos incentiva a olhar para os nossos desafios de forma categorizada, como se cada evento fosse independente do contexto no qual ele se insere. A simplificação da natureza, da economia e da sociedade nos levou a caminhos muito arriscados.

Quando falamos na construção de um novo modelo de desenvolvimento calcado na sustentabilidade, estamos falando de um processo que leva em consideração as variáveis econômicas, sociais, políticas e ambientais e que exige uma abordagem integrada de riscos, vulnerabilidades e oportunidades; de fatores cuja conexão nem sempre parece tão imediata. É o caso das relações complexas que ligam a chegada de um grande empreendimento a um território com a exploração de crianças e adolescentes, ou as limitações no uso de recursos naturais ao funcionamento do sistema econômico como um todo.

Seja na questão da proteção integral das crianças e adolescentes, na adaptação às mudanças climáticas ou na valoração econômica dos serviços ecossistêmicos, o trabalho das iniciativas do GVces procura fortalecer junto às empresas esse olhar para o todo, não somente por razões éticas, mas também por motivações econômicas. Ligar esses temas à estratégia de negócio é um passo fundamental para que elas se tornem atores relevantes nessas frentes de ação, com propostas viáveis e efetivas de atuação e capazes de olhar para esses desafios não apenas com a lente do custo, mas com a da oportunidade.

Para o GVces, avançar nesse trabalho é fundamental para apoiar a iniciativa privada no caminho para uma economia sustentável, inclusiva, inovadora e adaptada às demandas sociais e aos limites ambientais.

Em 2014, a TeSE continuará trabalhando no aperfeiçoamento das diretrizes desenvolvidas em seu ciclo inaugural para valoração econômica dos serviços ecossistêmicos. A proposta é revisitar e complementar as diretrizes, incluindo novos tipos de serviços ambientais e evoluindo na construção de ferramentas para relato de externalidades ambientais. Além disso, no contexto da revisão das diretrizes, as empresas-membro da TeSE desenvolverão projetos pilotos para testar a aplicabilidade dessa ferramenta na realidade empresarial.

A ID Local também continuará trabalhando na melhoria das diretrizes empresariais para a proteção de crianças e adolescentes construídas no ano passado. Um grupo de empresas-membro utilizará as diretrizes como ferramenta para o planejamento em situações tangíveis e reais, e ao final do ano será elaborado um conjunto de orientações práticas para a implementação dessas diretrizes pelas empresas. Além disso, ID Local lança em 2014 uma nova frente de atuação junto a empresas, a iniciativa Inovação em Desenvolvimento Local, em parceria com a ISCV, com o objetivo de levantar os elementos fundamentais para a criação de ambientes inovadores em territórios que recebem a atuação de grandes empreendimentos e/ou cadeias de valor.

Finalmente, a EPC avançará na agenda de adaptação em 2014, aproveitando os subsídios obtidos com o Fórum Latino Americano de Adaptação às Mudanças do Clima. Uma das propostas de trabalho da EPC é apoiar as empresas na elaboração de agendas empresariais de adaptação a partir dos riscos e oportunidades associados aos impactos das mudanças climáticas. Para tanto, a equipe do GVces pretende coconstruir junto com as empresas membro da EPC ferramentas que apoiem o desenvolvimento dessas agendas corporativas.

Em meio a este cenário, a oportunidade para o GVces e as empresas enxergarem conexões entre medidas de adaptação, caminhos para o desenvolvimento local e para a conservação de recursos naturais e dos serviços ecossistêmicos, compatíveis com os riscos e vulnerabilidades que caracterizam essas variáveis.

Externalidades socioambientais e preço
“Hoje, a atividade econômica lança suas externalidades socioambientais para a economia, o que acaba subsidiando seus preços no mercado. É por isso que a insustentabilidade acaba sendo mais barata que a sustentabilidade, e no final é a sociedade como um todo quem paga por essas externalidades.”

Mario Monzoni,
coordenador do GVces

Adaptação às Mudanças Climáticas e Empresas,
“As empresas são atores essenciais para a implantação de uma agenda efetiva de adaptação às mudanças do clima. Precisamos que estes atores tomem consciência desse papel e avancem para inserir a variável do clima em sua estratégia de negócio, utilizando metodologias e ferramentas confiáveis para identificar suas vulnerabilidades, dimensionar os impactos das mudanças climáticas e definir uma estratégia de atuação que englobe outros atores importantes, como o poder público e a sociedade civil.”

Mariana Nicolletti,
coordenadora da Plataforma Empresas pelo Clima

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